domingo, 12 de junho de 2011

Vadiagem


Naquela hora já noite

quando o vento nos traz mistérios a desvendar

musseque em fora fui passear as loucuras

com os rapazes das ilhas:

Uma viola a tocar

o Chico a cantar

(que bem que canta o Chico!)

e a noite quebrada na luz das nossas vozes

Vieram também, vieram também

cheirando a flor de mato

- cheiro gravido de terra fértil -

as moças das ilhas

sangue moço aquecendo

a Bebiana, a Teresa, a Carminda, a Maria.

Uma viola a tocar

o Chico a cantar

a vida aquecida com o sol esquecido

a noite é caminho

caminho, caminho, tudo caminho serenamente negro

sangue fervendo

cheiro bom a flor de mato

a Maria a dançar

(que bem que dança remexendo as ancas!)

E eu a querer, a querer a Maria

e ela sem se dar

Vozes dolentes no ar

a esconder os punhos cerrados

alegria nas cordas da viola

alegria nas cordas da garganta

e os anseios libertados

das cordas de nos amordaçar

Lua morna a cantar com a gente

as estrelas se namorando sem romantismo

na praia da Boavista

o mar ronronante a nos incitar

Todos cantando certezas

a Maria a bailar se aproximando

sangue a pulsar

sangue a pulsar

mocidade correndo

a vida

peito com peito

beijos e beijos

as vozes cada vez mais bebadas de liberdade

a Maria se chegando

a Maria se entregando

Uma viola a tocar

e a noite quebrada na luz do nosso amor...



(Poemas, de António Jacinto

1 comentário:

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